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27/08/2009

Revista CARTA NA ESCOLA - ed. 37, junho/julho de 2009

UMA ESCOLA PARA ÁGUA


Por Thaís Helena Prado, especialista em gestão ambiental, e José Galizia Tundisi, mestre em Oceanografia e doutor em Ciências Biológicas e presidente da Associação Instituto Internacional de Ecologia e Gerenciamento Ambiental 


A água é uma substância que diferencia a Terra dos demais planetas. A poluição desse  recurso natural, essencial para a existência da vida, indica que um ou mais de seus usos foram prejudicados, o que atinge o homem de forma direta: no consumo, na higiene, na utilização doméstica, nas indústrias e na irrigação de plantações. Assim, a preservação dos recursos hídricos se torna fundamental. Mas, para que isso seja possível, é preciso pensar em uma forma de gerir o uso da água. E a escola é o local onde tal aprendizado pode ser disseminado e multiplicado. Esse artigo trata justamente de contar como foi  realizada uma experiência que uniu esforços da escola e da comunidade para a implantar uma gestão eficiente dos recursos hídricos, cujo resultado foi um aprendizado coletivo.

Em 2005, foi implantado um Centro Comunitário de Referência em Água, no município de Bocaina.  Em São Paulo - em Nova Lima, Minas Gerais o centro será instalado em 2009. Nesse centro são desenvolvidas atividades interativas, em torno do tema água e meio ambiente, sob supervisão do professor José Galizia Tundisi e a coordenação da bióloga Thaís Helena Prado e da socióloga Viviane Genovez.

Além desse espaço físico, foi criada uma rede de projetos e de ideias que são levadas até às escolas do município para incentivar e apoiar uma nova forma de aprender, que envolve os professores e alunos e explora as possibilidades de integrar escola-comunidade . A aprendizagem baseada em projetos é uma estratégia de ensino que permite aos alunos assumir a responsabilidade pelo seu aprendizado ao tomar decisões e criar soluções para problemas que lhes interessam.

Ao serem inseridos nas questões da comunidade, os alunos desenvolvem a percepção de valorização de um lugar comum a todos e aprendem que cuidar do meio ambiente beneficia não só a natureza, mas a eles mesmos e à toda cidade.  Os alunos são orientados por professores e assumem um papel mais ativo na sua aprendizagem . Assim, o projeto busca ensiná-los a cuidar da água através de projetos de ação-participativa.

Com o auxilio dos professores de Ciências, os estudantes do Ensino Médio estudam a composição física e química da água e visitam o Centro , local onde há palestras e análises microscópicas de organismos aquáticos. Em seguida, são convidados a visitar os córregos do município e coletar a água para análises físico-químicas, como pH, Oxigênio, Temperatura, Condutividade . A importância dessas análises e como se diferencia uma água limpa de uma poluída faz parte da aprendizagem dessa etapa do projeto.

Os alunos do Ensino Fundamental visitam o espaço, fazem excursões aos córregos e são levados para realizar o plantio de árvores em torno dos córregos. Uma ação simples, que mostra a importância e as relações do meio físico e biológico com a água, é a construção do terrario ecológico . Depois de cada aluno montar o seu terrario, com plantas, pedras, terra, carvão e garrafas “pets” foram estudados conceitos sobre o ciclo hidrológico, aquecimento global e efeito estufa.

Todos os alunos são orientados a preservar e economizar não só a água da escola, mas também a água da sua residência, através de um “software” de economia de água . Os alunos levam as contas de água ao Centro e, através dessa ferramenta, podem averiguar o quanto se gasta e o quanto se pode economizar de água. Ações simples como a distribuição de um copo e uma escova aos alunos para não desperdiçarem água ao escovar os dentes, bem como orientar a população a não desperdiçar água lavando calçadas com água tratada, reutilizar a água da máquina de lavar roupas, fechar a torneira ao escovar os dentes ou ensaboar a louça e reduzir o tempo de banhos são difundidas e trabalhadas no dia-a-dia do aluno.
Dessa forma, pode-se observar que, quando escolas e comunidades trabalham juntas, todos prosperam. Com o auxilio do Centro, as escolas municipais desenvolveram projetos que ajudam os alunos a melhorar a comunidade e a educação comunitária. A rede de relacionamentos que cresce na estrutura da aprendizagem baseada em projetos apóia uma nova capacidade de recuperação que é vital para a renovação de escolas e comunidades e para integrar as matérias estudadas ao local onde vivem e os desafios ambientais que enfrentam.

No decorrer do projeto, obtivemos um excelente apoio da comunidade, que permitiu criar uma rede de troca de informações e aprendizado com os municípios envolvidos. Através do projeto implantado no município de Bocaina, observamos que a melhor maneira de se tratar as questões ambientais é com a participação de todos os cidadãos interessados em vários níveis. Informar, ouvir e decidir são tarefas relacionadas à participação pública no processo.  E isso repercute em forma de lei no Brasil: a lei Federal nº. 10.650, de abril de 2003, dispõe sobre o direito à informação ambiental.

Todavia, além de ser informado e ter o direito de participar das decisões, o cidadão, antes de tudo, deve ser orientado a criar uma percepção de preservação do local. É preciso permitir que ele seja integrado à questão ambiental e que se torne um co-responsável do processo, assumindo uma parcela de cuidado no local onde vive. Só assim ele poderá contribuir para a melhoria da qualidade ambiental na sua vida e na da sua comunidade.

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